O Professor tira dúvidas

Março 06 2009

 

O fim último da vida não é a  excelência... 

  O autor deste texto é João Pereira Coutinho,  jornalista. 

"Não tenho filhos e tremo só de pensar.  Os exemplos que vejo em volta não
aconselham temeridades. Hordas de amigos  constituem as respectivas proles e,
apesar da benesse, não levam vidas  descansadas. Pelo contrário: estão
invariavelmente mergulhados numa  angústia e numa ansiedade de contornos
particularmente patológicos. Percebo  porquê. Há cem ou duzentos anos, a vida
dependia do berço, da posição  social e da fortuna familiar. Hoje, não. A
criança nasce, não numa família  mas numa pista de atletismo, com as
barreiras da praxe: jardim-escola aos  três, natação aos quatro, lições de
piano aos cinco, escola aos seis, e um  exército de professores,
explicadores, educadores e psicólogos, como se a  criança fosse um potro de
competição.
 

Eis a ideologia criminosa que  se instalou definitivamente nas sociedades
modernas: a vida não é para ser  vivida - mas construída com sucessos
pessoais e profissionais, uns atrás  dos outros, em progressão geométrica
para o infinito. É preciso o emprego  de sonho, a casa de sonho, o maridinho
de sonho, os amigos de sonho, as  férias de sonho, os restaurantes de sonho.
 

Não admira que, até 2020,  um terço da população mundial esteja a mamar forte
no Prozac. É a velha  história da cenoura e do burro: quanto mais temos, mais
queremos. Quanto  mais queremos, mais desesperamos. A meritocracia gera uma
insatisfação  insaciável que acabará por arrasar o mais leve traço de
humanidade. O que  não deixa de ser uma lástima.
 

Se as pessoas voltassem a ler os  clássicos, sobretudo Montaigne, saberiam
que o fim último da vida não é a  excelência, mas sim a felicidade!”
 
 
 
publicado por OPTD às 11:01

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