O Professor tira dúvidas

Julho 06 2009

 

 

 

O Tombo da Lua
 
 
 
 
 
            Uma ocasião, quando desapareceu a Lua, eu estava lá e sei contar tudo. Não me lembro da idade que então tinha e já na altura me não lembrava. Certo é que a noite estava muito quente e repassada de azul, assim de tinta ¾ sói dizer-se ¾ e a Lua tinha-se quieta, redonda e branca, brilhante como lhe competia. Provavelmente o Zé Metade cantava o fado, postado à soleira da porta, enquanto acabava um saquitel de tremoços. O Zé Metade é assim chamado desde que lhe aconteceu uma infelicidade: quis separar o Manecas Canteiro do Mota Cavaleiro quando eles se envolveram à facada na Esquina dos Eléctricos, por causa de uma questão, segundo uns política, segundo outros de saias. Ambos usavam grandes navalhas sevilhanas e o Zé caiu-lhes mesmo a meio dos volteios. Ali ficou cortado em dois, sem conserto, busto para um lado, o resto para outro. Daí para diante ficou conhecido por Zé Metade, arrasta-se num caixote de madeira com rodinhas e deu-lhe para cantar todas as noites um fado melancólico e muito sentido: Ai a profunda desgraça / Em que me viste ó `nha mãiiii…
            Pois foi nesta altura, com tudo assim quieto e a fazer olho para dormir, que o Andrade da Mula se chegou à janela e disse: “Lá a calari…” e depois remirou em volta a ver se alguém lhe ligava, o que não aconteceu.
            Após olhou para o Céu e bocejou um destes bocejos do tamanho duma casa, escancarando muito a bocarra que era considerada uma das mais competitivas da zona oriental. E então aconteceu aquilo da Lua.
            Deslocou-se um bocadinho assim como quem se desequilibrou, entrou a descer devagar, ressaltou numa ponta de nuvem que por ali pairava feita parva, e foi enfiar-se inteirinha na boca do Andrade que só fez “gulp” e esbugalhou os olhos muito. No sítio da Lua, lá no astro, ficou um vinco esbranquiçado como dobra em papel de seda que logo se apagou e o céu tornou-se bem liso e escorreito. O Beco ficou um tudo nada mais escuro e um gato passou a correr, pardo, da cor dos outros.
            Diz o Zé Metade, no fim duma estrofe: “Ina cum caraças!”
            Vai o Andrade lá de cima e atira o maior arroto que jamais se ouviu naquele Beco.
            Era o Zé Metade a berrar para dentro: “`nha mãe, venha cá, senhora, co Andrade engoliu a Lua!” e o Andrade a olhar para nós, limpando a boca com as costas da mão, um ar azamboado.
            Seguiu-se o alvoroço costumeiro sempre que havia novidade. Ia um corrupio de pessoal na rua a falar alto e um ror de gente em casa do Andrade que estava sentado numa cadeira, pernas muito afastadas, pedindo muita água e queixando-se de que sentia a barriga um bocado pesada.
            ¾ Ele não teve culpa, tadinho, que ela é que se lhe veio enfiar pela boca dentro ¾ comentava a mulher do Andrade, torcendo a ponta do avental.
            ¾ Mas se foi ele que a desafiou ¾ gritava a mãe do Zé dando punhadas de uma mão na palma da outra mão. ¾ Pôr-se ali na janela aos bocejos, olha a farronca! Agora vem esta a querer baralhar género humano com Manuel Germano. O meu Zé viu tudo, óvistes?
            Não tardou, estava o presidente da Junta, muito hirto, no seu casaco de pijama com flores:
            ¾ Isto o meu amigo o que fazia melhor era regurgitar a Lua, ou o Beco ainda fica mal visto ¾ observou com gravidade e voz de papo.
            E o Andrade, moita, ali embasbacado, com os olhos no vago.
            Deram-lhe azeite para o homem vomitar, mas nada. Limitou-se a produzir uns sons equívocos e a esboçar um ar de enjoada repugnância.
            ¾ O pior é que se ela sai pelo outro lado nos parte a sanita nova ¾ abespinhava-se a filha do Andrade, toda de mão na anca. ¾ Que coisa mais escanifobética…
            É levarem-no já para o hospital ¾ gritava o Zé Metade da rua, ansioso por se ver acompanhado na sua desgraça de vítima do escalpelo cirúrgico.
            Mas o presidente da Junta considerou: Então e depois a Lua onde é que a punham? Quem lhes garantia que ela voltava ao sítio? E se os médicos quisessem ficar com ela lá no hospital e a prantassem dentro dum frasco com álcool? Que é que aquela gente ganhava com isso? Hã? E em faltando a Lua, quais eram os inconvenientes? Hã?
            ¾ Acabam-se as marés ¾ disse o Paulino Marujo.
            ¾ Coisa de pouca monta ¾ afirmou uma mulher. ¾ As marés nunca deram de comer a ninguém. E quanto à luz, depois da electricidade…
            ¾ Então como é que o amigo se sente? ¾ Perguntou o presidente ao Andrade.
            ¾ Menos mal, muito obrigado. Vai um pedacinho melhor…
            ¾ Então é melhor ficarmos assim ¾ recomendou o Presidente. ¾ Vossemecê agora toma um bicarbonatozinho, um leitinho, e ala para a cama que amanhã é dia de trabalho. E vocês todos, andor, para casa, em ordem e não se pensa mais em tal semelhante!
            E assim foram fazendo, aos poucos e poucos.
            No dia seguinte, a Humanidade toda estranhou muito o desaparecimento da Lua e deu-se a grandes especulações.
            Era com algum orgulho que a população do Beco via passar o Andrade. Sempre gaiteiro, apenas um pouco mais gordo.
 
 
Mário de Carvalho, Casos do Beco das Sardinheiras
publicado por OPTD às 07:25
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